amor-versus-odio

A complexidade do sentir: ódio do bem x amor do mal

Por Beatriz Breves*

Ao migrar da visão Newtoniana de universo, aquela que compreende a natureza e a humanidade, pela ótica materialista e mecanicista, para uma visão vibracional, o ser humano passa a ser compreendido como um complexo vibracional uno, inteiro e indivisível.

A partir dessa visão, baseando-me na Ciência do Sentir, os sentimentos são compreendidos como a experiência vibracional que a pessoa sente da própria vibração que é enquanto ser humano e daquela que resulta da sua interação com o meio. Acrescenta-se que são mais de 500 possibilidades de sentimentos que, interagindo entre si, constituem uma complexidade impossível de ser separada, onde se um sentimento é ativado, a imagem de um efeito dominó, vários outros são ressoados.

Assim, no nomeado “ódio do bem”, a confirmação de que o sentimento de ódio estará a serviço do bem vai depender dos outros sentimentos que juntos estarão sendo ativados e, também, de como serão usados pela pessoa que o sente. Um possível uso construtivo do ódio, que poderia servir de alicerce para uma atitude de garra, seria quando, ao ativar o ódio, a pessoa fizesse ressoar dentro de si a força e, assim, ela decidisse investir na coragem, ousadia, persistência.

Entretanto, um possível uso destrutivo do ódio, que poderia se revelar em atitudes de tirania, seria quando, ao ativar o ódio, a pessoa fizesse ressoar dentro de si a vingança e, assim, ela decidisse investir na crueldade, desprezo, dominação, entre outros. No que tange ao “ódio do bem”, se este sentimento é usado em nome de um ideal que se propõe a benefícios, ele estaria ativando o sentimento de amor naquela pessoa que o sente. Todavia, a questão que se apresenta é que o amor também pode, assim como o ódio, ter um uso construtivo ou destrutivo.

Um possível uso construtivo do amor, que poderia se revelar em atitudes de autonomia, seria quando, ao ativar o amor, a pessoa fizesse ressoar dentro de si a confiança e, assim, ela decidisse investir na esperança, no otimismo ou na prosperidade.

Entretanto, um possível uso destrutivo do amor, que poderia se revelar em atitudes intransigentes, seria quando, ao ativar o amor, a pessoa fizesse ressoar o ciúme e, assim, ela decidisse investir na posse, no apego, no orgulho, etc. Sendo assim, o que irá determinar se os sentimentos de uma pessoa estarão a favor do que é ou não construtivo será o uso que, de modo a nortear as suas ações, ela irá fazer deles.

O que tem sido observado na prática do “ódio do bem” são agressões que, se iniciando em diversos xingamentos desrespeitosos, podem chegar a atitudes de violência tanto física quanto moral, muitas vezes até extremadas. Fato é que o “ódio do bem” tem se apresentado com uma prática impregnada de intolerância, arrogância e prepotência.

Acrescenta-se ainda que é uma prática que se valida ao espelho, ou seja, as pessoas só aceitam a existência dos pares iguais, devendo, a qualquer preço, ser banido o que se apresenta diferente. Desta forma, não fica difícil considerar que esse tipo de ódio se afina pelo amor narcísico e, juntos, formam uma complexidade afetiva ódio-amor.

Complexidade ódio-amor que impõe o funcionamento robótico, ou seja, aquele que, enquadrando as pessoas em um único programa de pensar, elimina as diferenças e anula a individualidade. Em sendo assim a prática do “ódio do bem” objetiva transformar as pessoas em cópias espelhadas umas das outras, a desumanizar o humano e a promover, ao impedir a expansão pelas diferenças, a atrofia pessoal.

Portanto, entendo o “ódio do bem’’ como sendo o reflexo em espelho do “amor do mal”, ou seja, daquele amor que agregado ao ódio, juntos e misturados, formam uma complexidade que incorpora a tonalidade narcisista. Tonalidade essa que leva a pessoa a sentir-se ferida por aquele que não lhe é igual, a arrojar-se em um ideal que, de forma autoritária, investe na transformação das pessoas em réplicas humanoides, ou seja, na anulação do ser humano como ser sensível, criativo e pensante.

*Beatriz Breves é psicóloga, psicanalista, física e psicoterapeuta. Sua especialidade é a Ciência do Sentir e os mais de 500 sentimentos listados durante 35 anos de pesquisa

Autor Coluna Sexologia

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