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Machos Líquidos

Por Jorge Miklos*

Por indicação de uma amiga, iniciei 2023 maratonando o seriado Machos Alfa, uma série disponibilizada pela plataforma de streaming Netflix, produzida em 2022. Criada por Alberto Caballero, Laura Caballero, Daniel Deorador e Araceli Álvarez de Sotomayor, a narrativa, leve e irreverente, está dividida em dez episódios e revela as crises de quatro homens – os amigos Pedro, Luís, Raul e Santi – cujos valores ‘sólidos’, herdados do patriarcado, entram em conflito com os valores ‘líquidos’ (expressão consagrada pelo sociólogo Zygmunt Bauman) do mundo contemporâneo.

Moldados pela solidez e rigidez do machismo, os personagens, por conta das reivindicações de mulheres transformadas pelo feminismo, se veem desafiados a liquefazer (flexibilizar), desconstruir e ressignificar seus comportamentos e identidades. Valores antes inquestionáveis (sólidos) para os homens – virilidade, poder econômico, monogamia, heteronormatividade, omissão dos sentimentos – “se desmancham no ar”. Entre uma demissão, uma relação aberta, um casamento em crise e um divórcio, quatro amigos de meia-idade tentam se ajustar à era das novas masculinidades. No seriado, as personagens femininas são os vetores de transformação do masculino. Como diz a letra da canção do Gil, os homens são desafiados a mudarem o curso de suas histórias por causa das mulheres. O feminino é o vetor para a transformação do masculino. As mulheres oferecem para os homens a oportunidade de mudança.

A insegurança neurótica dos homens se faz presente ao longo de toda a narrativa. O machismo é uma espécie de projeção do acúmulo de incerteza de si, arremessado na lama anti-erótica do desejo mais intenso de ficar com quem ama. Querer controlar o incontrolável deixa os homens cegos de raiva pela frustração de não conseguirem. O ego frágil que desenvolve um narcisismo defensivo, uma persona resistente. Como bem disse Simone de Beauvoir: “Ninguém é mais arrogante, violento, agressivo e desdenhoso contra as mulheres, que um homem inseguro de sua própria virilidade”. O machismo destrói a relação tal qual destrói a ele mesmo. Exemplo lúgubre de masculinidade tóxica.

O personagem Santi é, dos quatro amigos, aquele que mais abertura oferece a desconstruir a masculinidade tóxica e reinventar uma nova masculinidade. Porém, a flexibilidade não o poupa de atravessar várias situações conflituosas. Afinal, quando nos despimos de uma identidade e de uma persona precisamos construir outra. Que persona, que identidade constituir num ambiente cultural de identidades fragmentadas, flácidas, fluidas e líquidas?

O seriado é uma expressão de que há muitos homens incomodados com a masculinidade tóxica e procuram tensionar o padrão clássico propondo a ressignificação da masculinidade. Há uma tensão que atravessa o imaginário social suscitando considerar a possibilidade não mais de pensar a unilateralidade do padrão masculino no singular e acolher a pluralidade de identidades masculinas.

Que novos modos de ser homem apontam para a desconstrução da masculinidade emergem na cena contemporânea? É possível ser homem sem a máscara da heteronormatividade, do machismo, do poder, da violência, da dominação? Se a resposta para as questões anteriores é sim, quais os caminhos possíveis para reimaginar a masculinidade no contemporâneo?

*Jorge Miklos é graduado em História, Ciências Sociais e Psicologia. Especialista em Psicologia Analítica. É mestre em Ciências da Religião e Doutor em Comunicação. Pós-doutorado em Ciências Sociais Aplicadas. Trabalha na interface entre Psicanálise, Religião e Cultura. Suas reflexões abordam o vínculo social, o mito, a literatura, a produção audiovisual, a cibercultura, os conflitos, a política e as questões contemporâneas como gênero, masculinidades, religião, vida digital e diversidade. Psicoterapeuta e Supervisor Clínico. Docente da Pós-Graduação na Universidade Paulista e no Instituto Freedom.

Autor Coluna Sexologia

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